Terça-feira, 6 Janeiro, 2009

Omar-S: É mesmo isso

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Detroit é a cidade da Motown, Stooges, MC5, White Stripes, Funkadelic, Eminem, Aretha Franklin, Marvin Gaye, Kevin Saunderson, Juan Atkins e Derrick May. Todo o manual techno de Detroit é atribuído aos três últimos e tudo parecia inventado em 1990. Mas ainda houve Underground Resistance, Carl Craig e as muitas ramificações do som de Detroit encontradas na Europa. Agora Omar-S escreve num dos seus discos “I’m putting Detroit city back on the map!”

Pelo menos desde Underground Resistance que existe claramente uma ética no techno de Detroit. O trabalho social e militante de Mike Banks e amigos (Jeff Mills também foi UR) ficou como exemplo de uma atitude mantida viva na meia geração seguinte por Kenny Dixon Jr (Moodymann), Theo Parrish, Rick Wilhite, M. Pittman e Alex O. Smith (Omar-S), talvez o mais novo de todos eles. Theo Parrish vocifera mais porque dá mais entrevistas, mas Omar tem classe para seguir perto e ultrapassar, se ao menos publicassem mais palavras dele. Uma rara entrevista a circular na net revela a sua natureza conflituosa, por amor às raízes e ao verdadeiro espírito da música. Como Kenny Dixon Jr, Alex O. Smith utiliza o nome para as referências de catálogo nos discos: AOS, como KDJ. A informação escrita à mão, nos primeiros maxis, é mais um bocado de si colocado no vinil e, para entusiastas de mensagens escondidas, leiam as frases gravadas nos discos junto ao rótulo: “A.O.S is retiring soon!”, “FXHE is Detroit’s new sound – muffuka’s”, “This shit is sick!!!”, “Real right”, “Can y’all keep up with this!!”, “Traxx are german approved!”
Estas frases ajudam a descodificar uma personalidade em tiradas simples que falam de uma atitude em tudo semelhante à cena hip hop: eu estou aqui e é isto que vou fazer. E manter a coisa real parece ser o principal a que Omar aspira. Muito perto do sublime (“Psychotic Photosynthesis” é só a ponta do iceberg) há corridas de carros*, jogos video, action figures Star Wars e discos de boogie. Omar-S processa toda essa informação pop na sua cabeça e faz house que passa a ser a nova coisa a igualar. Tradição e futurismo em muito poucas palavras, quase nenhumas mesmo (os dedos de uma mão sobram para contar os temas com voz), um tecido muito fino que brilha intensamente com a luz certa e a luz certa é só um pouco de atenção extra que temos de dedicar à sua música.
Quando “Track #8″ apareceu, em 2004, foi a primeira vez que tivemos aqui um disco que toca ao contrário, de dentro para fora. E toca apenas de um lado, habitual nele, som meio industrial que faz parar o trânsito se ouvido numa pista de dança. “Psychotic Photosynthesis” sai no início de 2008, quando já não há dúvidas, dois meses depois de um maxi sem descrição numa editora classificada como “de dança”: era “Plastik Ambash” (Kyle Hall) na FXHE de Omar.
Theo Parrish diz sobre estes dois discos: “Essa merda é ridícula. Só há umas poucas pessoas em Detroit, na verdade em qualquer parte, que vêem que há espaço para editar coisas ou ideias que ainda não foram exploradas. Ele está a fazer isso. Também está a apanhar alguns artistas novos. Editou “Plastik Ambash”, do Kyle Hall. Aquilo anda para a esquerda e para a direita, o ritmo todo alterado. Ainda estou a aprender a tocar isso! É um disco lixado, fantástico. Mas ninguém anda a fazer essas coisas. Ouve-se a primeira vez e é tipo “que merda é esta?” Depois ouve-se outra vez e percebe-se que ele está lá à frente. E depois descobre-se que o tipo só tem 17 anos? É de loucos.” (Kyle Hall nasceu em 1991)

Theo sabe do que fala. Ele próprio fez alguns dos discos mais estranhos de house, e esse é também o desafio com Omar e outros DJs/produtores de Detroit: saber que o caminho pode ser mais longo e desviado do que é normal mas segui-lo na mesma, apreciar todos os minutos, porque aquilo que se ouve não é só uma sucessão de discos mas uma personalidade a ser revelada. Todos passam as suas coisas nos próprios sets, e as coisas dos amigos, é um circuito que, do exterior, parece fechado e impenetrável até se perceber que tudo o que é preciso é gostar de música, gostar da antecipação e não esperar um climax a cada 3 minutos, trabalhar progressivamente para uma festa em vez de entrar com a expectativa de ser esmagado imediatamente pelo último crescendo da moda. Amor fraterno e militância arrogante são as faces na mesma moeda. Alguém diz num dos fóruns dedicados a comentar a entrevista de Omar-S: “é por isso que não quero falar nem conhecer pessoalmente nenhum dos meus músicos preferidos.” Melhor atitude de sempre, depois de ultrapassarmos a fase de deslumbre e vontade de ligação directa com aqueles que tornam melhores os nossos dias. Descobrirmos que vários deles não têm nada para nos dizer e é melhor ficar do lado de cá a interpretar as coisas boas que nos dão. Todos os segundos de som e gramas de vinil de Omar, Theo, Pittman e a irmandade black que responde ao chamamento Superior traduzem o respeito pela verdade, dedicação e originalidade, não no sentido da originalidade por si mas no sentido do reconhecimento pessoal e íntimo de que o que se faz e se pensa tem de ser nosso, não de outros. Ouvir a música deles pode equivaler a uma lição de ética sem a teoria, só a prática, saltando todos os pormenores aborrecidos directamente em direcção ao centro que faz mexer a cabeça e tudo: o corpo e as emoções, que nunca se sabe de onde vêm. Moodymann, Theo Parrish e aposto que Omar-S (em “006″) utilizam fotografias de quando eram putos para simbolizar uma ligação às raízes e a uma pureza não contaminada por demasiada aprendizagem no mundo exterior. Mas o mundo exterior, hoje, SÓ quer Omar-S, as viagens à Europa são cada vez mais frequentes, os elogios, as lojas que querem ter os discos, e então AOS escreve em outro dos seus discos “I’m a invisible man in my county”. Quando se diz que ninguém é profeta na sua própria terra pensa-se também em “111″, álbum de 2006, listado em algumas lojas com o título “Foe Da International DJ Only”, frase para crackar o código da música mais sincera que se ouve nas pistas. Não aceitem imitações, se nunca ouviram falar de Omar-S vamos ter de repetir o que já se disse na parvoíce que é a internet: perguntem a alguém. Melhor: vão ouvi-lo. Se não gostarem, o vosso coração pode bem ter sido colocado do lado errado quando foram fabricados.

*Subaru STI (2006)
Omar-S: “É um carro de rally, ninguém sabe o que é, por isso ninguém o quer roubar, e depois é rápido como tudo e podes andar a batê-lo o dia todo numa corrida.” Mas agora é visto em fotos com o Corvette ZO6 de 2008. Como é??

obrigado a
www.infinitestatemachine.com

Omar-S “Psychotic Photosynthesis (no drum mix)” foi eleito o melhor maxi de 2008 pelo staff da Flur. Cópias ainda disponíveis ao preço de 8.95 eur.


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