RSD09 – Questionário #55
Terça-feira, 21 Abril, 2009Categoria: Destaque
Etiquetas: Gil Heitor Cortesão, Record Store Day
Este inquérito é uma forma de celebrarmos o Dia da Loja de Discos, assinalado a 18 de Abril e internacionalmente conhecido como Record Store Day. Cliquem no link acima para saber de que outras formas celebrámos o dia e quem nos ajudou.
11 perguntas quase só sobre discos. Muitas respostas. Muito obrigado a quem acedeu em partilhar os seus gostos connosco. Publicaremos tudo neste blog em ritmo RSD até ao final do mês de Abril e, após, de forma mais descontraída. Amor e paz para todos.


GIL HEITOR CORTESÃO
Pintor
Um disco que tenha sido muito importante (e já não seja) + razão.
Agrada-me pensar que os discos que foram, em certa época, muito importantes (e que depois de serem ouvidos ad nauseam durante determinado período, quase não foram mais escutados), voltarão a sê-lo, um dia: acredito numa espécie de paraíso dos discos perdidos e reencontrados…
Um desses discos foi, para mim o “Music for a New Society” do John Cale: é um disco muito denso, que escutei obsessivamente durante determinado período, quando tinha vinte e poucos anos, e que desde então quase não voltei a ouvir. Não porque se tenha esgotado (continuo a pensar que é bom), mas talvez porque há discos com os quais criamos uma relação muito intensa e que ficam para sempre associados a determinada fase da nossa vida. Quando ultrapassamos essa fase, deixamos de os ouvir. Não permitem meios termos: ou os ouvimos compulsivamente ou não os escutamos de todo…
Um disco que seja muito importante agora + razão.
Um disco que é muito importante agora (ainda que não seja um disco recente), e que o tem sido desde a primeira vez que o ouvi, nos anos 90, é o “Tilt”, de Scott Walker. Para mim é um disco inesgotável, um espaço muito escuro em que encontro, cada vez que mergulho nele, coisas novas, coisas que tinham passado despercebidas nessa escuridão. Não o ouço com muita frequência, naturalmente é um disco que exige uma disposição particular. Não sei se é melhor que o “The Drift”, mas para mim é mais importante (talvez pelo choque, surpresa e fascínio associados à sua descoberta, numa altura em que só conhecia de Scott Walker a colectânea “Boy-Child”, com músicas dos anos 60, também elas fascinantes, mas que se situam a anos-luz da galáxia negra de “Tilt”).
Um disco irresistível mas que o resto do mundo acha que é mau.
Há sempre alguém capaz de gostar das coisas mais horríveis…até as The Shaggs são um grupo de culto… francamente, não me recordo de possuir algum disco unanimemente considerado como mau… A maior parte dos meus amigos não me parece apreciar muito o Tiny Tim, mas não acredito que cheguem ao ponto de o considerar mau… Na realidade é maravilhoso, como David Tibet demonstrou.
A capa de disco favorita?
Uma das minhas capas de CD preferidas, nos últimos anos, é a de “Avalon Sutra”, de Harold Budd, editado pela Samadhisound de David Sylvian. Uma fotografia de flores, com o céu como fundo, em que o motivo natural é artificiosa e sofisticadamente apresentado: o contraste das cores das flores e do céu evoca o cinema de Hollywood dos anos 50 (Douglas Sirk, Hitchcock…).
Mais CD ou mais vinil? Porquê?
Mais CD. Por um lado, por questões de portabilidade (é mais fácil escutar um CD em qualquer lugar, é mais fácil transportá-lo ) e, por outro lado, por comodismo (é mais cómodo não termos de nos levantar para mudar o lado do disco… e é mais cómodo não ter que comprar uma nova agulha para substituir a agulha estragada que ainda está no gira-discos desde há vários anos…).
Qual o primeiro disco que se lembra de comprar e onde foi?
O primeiro disco que me lembro de comprar, em meados dos anos 70 (eu tinha então 6 ou 7 anos) foi um single, banda sonora da Pipi das Meias Altas: no lado A, o tema homónimo (título original: “Här Kammer Pippi”), composto por A. Lindgren e J. Johansson (será porventura pai do J. Johansson actual, o de “Englaborn” e “Fordlandia”???) e com versão portuguesa de Tó Zé Brito. A voz, provavelmente feminina e que canta em português, não é identificada. Na face B encontra-se o meu tema favorito: “A Minha Bicicleta” (“Pippi bei familie Settergren”), da autoria de Christian Brun: “(…) vou na minha bicicleta e vou pedalando, minha bicicleta, quase vai voando (…)”. Comprei-o na Compasso – que já não existe – em Campo de Ourique. Espero que um dia seja reeditado em CD e que seja objecto de merecido revivalismo. Se calhar, já o é e eu tenho estado distraído…
Qual o último disco que comprou?
“Better Must Come”, uma antologia de Delroy Wilson.
Qual o disco que irá comprar de certeza, em 2009?
Um disco que quero comprar é “Satori” dos Flower Travellin’ Band, depois ter lido o JapRockSampler, de Julian Cope, em que este o elogia ditirâmbicamente.
Qual é o artista mais representado na colecção?
Coil.
De que artista tenta comprar todos os discos, bons e maus?
Coil. Mas os discos deles são todos excelentes.
Que projectos tem em mãos actualmente?
Inauguro uma exposição individual (intitulada Atrás do vulcão e três pinturas semi-amestradas) na Galeria Pedro Cera, em Lisboa, no dia 18 deste mês (precisamente no Record Store Day, reparo agora…) .

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