RSD09 – Questionário #117

Terça-feira, 21 Julho, 2009
Categoria: Destaque
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Este inquérito é uma forma de celebrarmos o Dia da Loja de Discos, assinalado a 18 de Abril e internacionalmente conhecido como Record Store Day. Cliquem no link acima para saber de que outras formas celebrámos o dia e quem nos ajudou. E aqui para verem fotografias de 18.04.2009.
11 perguntas quase só sobre discos. Muitas respostas. Muito obrigado a quem acedeu em partilhar os seus gostos connosco. Publicaremos tudo neste blog durante as próximas semanas. Amor e paz para todos.

grand funk livecaetano-araca-azul

MÁRIO LOPES
Jornalista

Um disco que tenha sido muito importante (e já não seja) + razão.
Os meus avós tinham vindo visitar a família. Almoço terminado, o avô dormia no meu quarto, rodeado por posters onde, miseravelmente, se destacava a careca do Mark Knopfler. A adolescência estava prestes a começar e eu não gostava propriamente de música, era fã dos Dire Straits. Na sala, o meu pai pôs a rodar um vinil e, minutos depois, começou a batucar furiosamente o sofá. Deep Purple, “Made In Japan”. O som do vinil, o Hammond distorcido do Jon Lord e as pirotecnias do Richie Blackmore na guitarra. No dia seguinte, acabavam os Dire Straits e a colecção de vinil caseira começou a ser investigada com maior atenção. Simbolicamente, “Made In Japan” ainda é grande, mas se os vinte minutos de jam cósmico-headbanger que o encerram, “Space Trucking”, se mantém coisa excitante, há por ali toda uma série de coisas, como tenebrosos duelos voz-guitarra, que impossibilitam qualquer reprodução da “revelação” pré-adolescente de há sei lá quantos anos – mas, qual “freak-show”, ainda consigo trautear-lhe, nota por nota, todos os solos de guitarra.
Um disco que seja muito importante agora + razão.
Isto anda rápido demais e a capacidade de absorver tudo e enquadrar a verdadeira relevância da música que sai todas as semanas é trabalho tão árduo quanto frustrante. Exagerando, podia referir dezenas de discos que acredito serem, agora, muito importantes para mim (por uma semana, por um mês, por um ano). Fico-me por três.
Pela intemporalidade, pela forma como se prova e reafirma o poder “clássico” de uma canção, Cass McCombs e o seu “Dropping The Writ”, que me acompanha regularmente e como nenhum outro disco desde que foi editado em 2008.
Pela capacidade de surpreender, de cristalizar um momento específico que nos fala do presente, primeiro, e nos mostra uma série de possibilidades em aberto, depois, o “Jewellery” de Micachu & The Shapes – pop distorcida, caleidoscópica, em que se projecta toda esta primeira década do século XXI (and more).
Pela proximidade gerada à primeira audição, culpa de um sentido melódico ímpar, pela forma como a voz é colocada e como as palavras fluem de forma tão familiar quanto surpreendente, as “fachadices” do Bernardo Fachada (o “Viola Braguesa” que já saiu e o “Um Fim De Semana no Pónei Dourado” que está quase a chegar).
Um disco irresistível mas que o resto do mundo acha que é mau.
“Grand Funk Live”. A banda, sinónimo do white-trash americano, tornou-se símbolo de coisa tenebrosa – o Lester Bangs fartava-se de lhes dar na cabeça e muito bem. A verdade é que aquela energia, aquela forma de manter um groove pesadão ininterruptamente, merece todo o respeito. E a secção rítmica devia ser samplada em larga escala. É absurdamente datado (1970) e está recheado de pormenores de mau gosto, mas não consigo resistir-lhe. Ah, e qualquer colectânea de singles das Girls Aloud, actualização, via Xenomania, da Motown da tripla Holland-Dozzier-Holland.
Uma capa de disco favorita?
Um tipo pega num disco de vinil, tão grande, tão recheado de pormenores, tão importante para nos relacionarmos com a música que está lá dentro, e arrisca dizer que todas as capas, mesmo a dos trigais de “Portuguesa Bonita”, do grande José Cid, são as melhores de sempre. Depois, reduzimos o foco. E concluímos que o preto e branco do “Revolver”, desenhado para os Beatles pelo Kaus Voorman que conheceram em Hamburgo, é tão perfeita quanto a música perfeita que representa. Ou que o Caetano de tanga vermelha sob o sol brasileiro, o de “Araçá Azul”, grito luxuriante no regresso do exílio, é poderoso como poucos outros.
Mais CD ou mais vinil? Porquê?
Durante muitos anos, andaram lado a lado – a preferência era o CD, isto para o que havia sido editado originalmente nesse formato, e era o vinil para a matéria histórica que o formato digital não reproduzia da mesma forma. Agora, dado que a minha profissão me enche a casa de CDs, a prioridade nas investidas em lojas de discos é o vinil, formato perfeito em estética e duração.
Qual o primeiro disco que se lembra de comprar e onde foi?
Lembro-me dos meus pais me comprarem, no Girassolum de Coimbra, em meados dos anos 80 e perante a minha insistência, o “Woodpeckers From Space”, de uns negligenciados Vídeo Kids (suecos penso eu). Mas isso não conta realmente que, para mim a música, de forma consciente, viria muito depois. Três momentos. Apanhar a cassete do “Nevermind”, dos Nirvana, num hipermercado para os lados de Telheiras – acabaria por rodar por metade da população da escola secundária (a outra metade preferia os Guns N’Roses). Poupar dinheiro daquelas primeiras saídas à noite para, sábado de manhã, ir à Valentim de Carvalho do Centro Comercial Alvalade comprar o “Buffalo Springfield Again”. Vender bugigangas na Feira da Ladra para, um par de ténis e uns jogos do Spectrum depois, apanhar por ali o vinil do “Desire”, de Bob Dylan, a 200 escudos.
Qual o último disco que comprou?
“The Age Of Understatement”, dos Last Shadow Puppets. Chegou a semana passada via Amazon, atrasadíssimo em relação à data de edição – só recentemente me deixei conquistar pela elegância britânica da coisa, recheada de orquestrações e “Scott Walkerices” em formato juvenil portátil. Em loja, a caixa de singles dos Smiths, “The Smiths” – música importante, objecto irresistível.
Qual o disco que irá comprar de certeza, em 2009?
“Atlantic Ocean”, o novo de Richard Swift. O toque soul do último EP, “Ground Troubled Jaw”, prenuncia algo em grande e não deixa outra hipótese.
Qual é o artista mais representado na colecção?
Bob Dylan, seguramente. Está lá tudo, menos pedaços dos seus negros anos 1980 e o pouco inspirado período cristão. Estranhamente, descobri há uns tempos que tenho uma catrefada de álbuns dos Grateful Dead, que nunca foi uma das minhas bandas de eleição – são resquícios do fascínio precoce pelo psicadelismo de 1960 e da quantidade absurda de álbuns deles que, nos anos 1990, estavam disponíveis a preço convidativo na Feira da Ladra. O Zappa é um caso semelhante. Mesmo eliminando da equação os álbuns instrumentais, aborrecidíssimos, e a produção de finais de 70 em frente, que não me interessa de todo, a colecção que tenho é maior que o fascínio pela obra.
De que artista tenta comprar todos os discos, bons e maus?
Nunca sigo incondicionalmente um músico. Não gosto de ver maculados os meus fascínios e obsessões e, como tal, prefiro rasurar a obra a meu belo prazer, ignorar as excrescências e guardar apenas aquilo que realmente me interessa. Os Beatles não contam, que é tudo perfeito (e a obra já se conhece desde sempre). Sly & The Family também é sempre bom, mesmo os maus discos que editou depois do “Fresh”.
Que projectos tem em mãos actualmente?
Pragmaticamente, sobreviver à crise. Depois, aprender a tocar cavaquinho – eu que sei apenas três acordes de guitarra e dou uns toques na bateria, descobri um no sótão de casa de família, em Coimbra, e senti aquilo como um chamamento. Mandei-o restaurar e estou ansioso por tê-lo nas mãos para iniciar essa nobre tarefa.

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