Sexta-feira, 26 Setembro, 2014

LUST 843: JOANA GAMA


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

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26.9.2014
“TROVOADA”
por JOANA GAMA

Recuando uns anos…
Quando comecei a estudar piano tinha uma professora muito rigorosa (o clássico).
Contudo, a sua rispidez nas aulas
contrastava grandemente com a postura que adoptava no dia das audições,
altura em que era extremamente afectuosa.
No tempo em que fui a sua aluna mais nova,
e por isso a primeira a tocar,
antes do concerto dizia-me, como incentivo:
“deves abrir a audição com chave de ouro”.
Lembro-me bem destas palavras na sua voz
- cuja vivacidade ainda hoje mantém apesar dos seus quase 100 anos –
e lembrar-me delas é lembrar o brio
e o gosto pelo palco que a professora me incutiu.

Por volta da altura em que comecei a estudar piano
comecei também as aulas de ballet (o clássico).
Em ambos os casos: a relação com o corpo e com a música,
a repetição, a disciplina, o “a longo prazo”.
No ballet tinha exames e espectáculos o que, apesar do nervosismo, adorava.
Fora das aulas de piano, caso houvesse uma mesa,
dedilhava as peças que estava a tocar.
Fora das aulas de ballet repetia os exercícios sem sair do lugar. (A persistência. O gosto.)

“To make a long story short” houve uma altura,
durante o secundário, em que decidi focar-me no piano e deixei as aulas de ballet.
O repertório pianístico, cada vez mais difícil, exigia mais horas de estudo.
Deixei as aulas de ballet mas delas herdei uma “postura de bailarina” ao piano.
Percebo também que o movimento dos meus braços quando toco
tem muito a ver com a expressividade e leveza dos braços das bailarinas.
No ballet ouvia a música e o corpo exprimia o que sentia.
Com o piano eu produzo a música e expresso o que sinto quando toco.

Passaram vários anos até 2007,
altura em que encontrei, no suplemento das artes do Expresso,
uma fotografia lindíssima de alguém a tocar piano.
Na fotografia via-se as costas de uma mulher, cabelo apanhado,
saia às riscas pretas e brancas.
Tratava-se do espectáculo “Uma Lentidão Que Parece Uma Velocidade” da Tânia Carvalho.
Na peça, que adorei, a Tânia tocava piano e dançava, alternadamente.
Essa junção, essa feliz convivência dos dois mundos,
levou-me a conhecê-la e a começar a trabalhar com ela, até hoje.
Através da Tânia conheci e trabalhei com o Luís Guerra e isso leva-nos ao presente,
à actualidade a que este texto se deve referir.

No dia 4 de Outubro, sábado, em Vila Do Conde,
no âmbito do Circular Festival De Artes Performativas, estreia “Trovoada”,
uma peça que “articula o universo estético do coreógrafo e bailarino Luís Guerra
com duas composições musicais originais” – uma criada por Ulrich Estreich (1º acto)
e outra composta por João Godinho para ser interpretada ao vivo, por mim (2º acto).
Música – Corpo – Expressividade.
Uma trilogia com a qual convivo diariamente
mas que ganha outra dimensão quando partilho o palco com bailarinos.
Partilhar o palco com o Luís, artista virtuoso, será um prazer.

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joana gama, pianista de formação clássica, vai-se caminhando cada vez mais para fora dessas fronteiras – como foi o caso de “quest”, com luís fernandes (edição shhpuma deste ano). é doutoranda na universidade de évora e investiga sobre música contemporânea portuguesa para piano. está por estes dias a preparar “trovoada”, uma peça de luís guerra que conta com a sua colaboração em palco.



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