Sexta-feira, 17 Outubro, 2014

LUST 846: EDUARDO MORAIS


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

17.10.2014
“O MEU AMIGO JOÃO”
por EDUARDO MORAIS

O João Alves da Costa é a personagem mais peculiar
que apanhei ao longo desta breve carreira como documentarista.
O João foi baterista da banda pioneira do psicadelismo em Portugal, os Jets.
Conheci-o em 2011,
quando fui a sua casa para lhe apresentar pessoalmente
o conceito do “Meio Metro de Pedra”.
Que caverna aquela, ou que museu aquele.
Estavam milhares de discos por todo o chão,
e centenas de recortes pornográficos pelas paredes e móveis.
A desarrumação era nítida de alguém que saía pouco daquele espaço.
O João, com o seu aspecto de gémeo-bom do Jess Franco,
pediu-me para o seguir até ao quarto, onde se descalçou e deitou na cama.
Mas só queria conversar; percebi que aquele é o seu verdadeiro espaço de conforto.
O João Alves da Costa para além de notável jornalista d’A Bola,
é principalmente conhecido pelo livros de teor profano que escreve.

Bas-fond, sadomasoquismo, prostituição,
ou apenas o puro sexo é o leitmotiv da efusão mental do João.
Trata por tu todas as meninas num raio de não sei quantos quilómetros ou cliques,
e naquele dia, passou a maioria do tempo a falar-me nas conversas que tem com elas,
em vez de querer saber do raio do documentário.
Entre a primeira visita e o dia que o iria entrevistar passaram-se algumas semanas.
Da segunda vez, levei a Ágata Silveira para filmar e o Fau Reis para captar o som.

O João orgulhosamente apresentou-se para ser filmado com uma t-shirt da Penthouse,
que ele mesmo tinha feito.
E é com esse logo que tem sido visto na tela ao longo dos últimos anos.

Fala como toca bateria, a um ritmo nada acompanhável.

Contou-nos como o mentor da banda João Vidal Abreu,
teve de sair do país para fugir à Guerra Colonial,
e pelas suas palavras, eu imaginava um John Cale de Alvalade ou algo do género;
de quando os Jets tomaram LSD pela primeira vez, em ’67, numa tour pelo Algarve.
Por lá, tinham groupies inglesas e tudo.
Confessou, no entanto, não ter sido atingido por nenhum dos dois.
No fim da entrevista, levou-nos ao seu computador,
mostrou-nos as suas amigas virtuais, cada uma com um nome mais artístico que a anterior.
Ofereceu-me ainda um poster inacreditável dos Jets de 1967.
À boa maneira dos anos 60, COBRIU-O INTEIRO com uma dedicatória alucinada,
que quase me fez verter uma lágrima.

Não sou nada de fanatismos ou de idolatrar músicos,
mas quando saímos de sua casa perguntei ao Fau:
“Será que no futuro nós também vamos ser assim?”

—–

“uivo” é um documentário, financiado por crowdfunding e realizado por eduardo morais, que presta uma bonita homenagem a antónio sérgio através de muitos depoimentos de quem se cruzou com a sua arte e de quem foi tocado pelas muitas horas de rádio que encheram o nosso éter.
adiram à página do “uivo” no facebook para saberem em que cidades e locais o documentário será mostrado:

https://www.facebook.com/uivoantoniosergio

é de um outro documentário seu, também sobre as memórias da nossa música,
que o eduardo nos partilha uma das suas muitas histórias.



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »