Sexta-feira, 5 Dezembro, 2014

LUST 853: KA§PAR


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

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5.12.2014
LOJA DE DISCOS = CENTRO COMUNITÁRIO
por KA§PAR

Recordo um vaticínio moral e mortal,
feito por uma “dj” amiga…
ditava ela que a morte do formato vinílico
se daria num prazo máximo de cinco anos (vivia-se em 2002).
A ascenção de tecnologias alternativas
que resolviam problemas era imparável,
essa inevitabilidade mostrava-se prestes a reduzir milhões e milhões de edições
a uma pálida memória.
Hoje passaram doze anos sobre o momento dessa afirmação,
estou a escrever pensamentos avulsos
para uma newsletter de uma loja de discos… a “minha” loja de discos.
O espaço onde melhor compreendem quem eu sou e como me sinto
- pela análise periódica da música que preciso de comprar,
e onde consigo discutir com pessoas que vejo de vez em quando,
como se estivesse à mesa com a minha família.

Tornei-me cliente da casa
desde o primeiro momento que se trocou vinil por dinheiro…
daquele que renova cartão atrás de cartão.
Daquele que pede para encomendar,
daquele que sabe o que quer mas mais do que isso…
daquele tipo de cliente que gosta de ser surpreendido
por quem sabe mostrar algo fresco.
Ainda assim comprei o Traktor, digitalizei discos, comprei ficheiros
e recebi inúmeras promos que toquei digitalmente antes do prazo de edição.
Os discos, contudo,
estiveram sempre a crescer de número durante todo esse processo.

No pouco tempo que tenho para concluir esta introdução,
algo narcísica,
queria agradecer aos meus “dealers” de música.
Todos eles grandes amigos, à sua maneira,
e pessoas que me conhecem melhor que muitos que pensam sabê-lo.

A reunião de sexta à tarde
na Question Of Time e Discomundo das minhas infância e adolescência
(quando chegavam as imports dos Estados Unidos),
a quinta à tarde na Godzilla quando as caixas eram abertas
para distribuir as encomendas (nos meus anos do secundário),
a terça à noite quando o Cheeks recebia os pacotes de Londres
durante os meus tempos de faculdade e o sábado,
muitas vezes ressacado da noite anterior atrás dos pratos,
a comprar discos na Flur…
eram sempre momentos de partilha e discussão,
de fervoroso debate, de dar a conhecer o que o outro não tem,
de mostrar quem se é na esperança de fazer ecoar no outro
o mesmo brilho nos olhos que se tem ao falar.
Quantos dj’s não se tornaram melhores amigos pela música de que tanto gostavam? Quantos amigos não se tornaram dj’s pela paixão que partilhavam?
Quantos amantes de um género não conheceram outro pelo amigo que fizeram?

Quanto se ganha por se fazer de uma loja de discos um ponto de encontro!
Certamente não pelo coincidente formato redondinho que têm,
ou por ser o formato supra-sumo da Criação,
mas pelo fórum… pela plataforma onde se afirma um amor imorredouro,
pela admissão de uma dependência obsessiva (vinílicos anónimos),
pelo avanço cultural.

Há quem ame a música a este ponto,
tal como há quem a use para sua frívola valorização pessoal
- isto é verdade tanto no “music business”, como no balcão da loja,
mas a verdade é que se vê ‘quem é quem’
pela conversa que se tem numa loja de discos.
Agora, por favor, encomendem aos rapazes o meu último disco,
chama-se “Code Duello”,
saiu na editora Housewax!

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ka§par. ele já diz bastante sobre locais onde passou muito tempo neste século e, aqui, habituámo-nos à sua presença como amigo e cliente com um gosto infalível nos discos que escolhe para tocar nos seus sets. aguardamos o álbum que sabemos que é capaz de gravar mas, para trás, ka§par já tem uma série invejável de maxis em editoras bem visíveis no circuito como a clone, 4lux, stripped & chewed e tink!, entre outras. actualmente acumula cargos: dj, claro, mas também produtor, professor e engenheiro de som nos recentes portland studios, base portuguesa da operação tink! / tomorrow is now, kid! música sempre no centro.



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