Sexta-feira, 4 Setembro, 2015

LUST 890: PEDRO RIOS (BRANCHES)


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

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4.9.2015
“PARA VER O SOL (SELECÇÕES 2006-2014)”
por PEDRO RIOS (BRANCHES)

O LP “Para Ver o Sol (Selecções 2006-2014)” é uma espécie de antologia do que fiz – cassetes, lançamentos digitais, CD-R – enquanto Branches desde 2006 (está tudo em https://branchesbranches.bandcamp.com). O João Santos da Wasser Bassin, a quem fico grato, e eu escolhemos as canções/peças mais representativas daquele período. Rumo ao futuro.

1. “Mar De Março”: A batida, se bem me lembro, é de um Casio que andava lá por casa. Depois, gravei guitarra em cima de guitarra, todas a repetir uns acordes simples. Gosto deste método de acumulação – nos interstícios das repetições surgem novos caminhos, avenidas ao lado. Nunca a tinha posto num disco.

2. “És uma Campeã”: Um interlúdio do “Casa Nossa” (2014) que parece deixar os teclados e o pedal de delay à solta. Gosto deste lado quase acidental de algumas canções.

3. “Primeira Vez”: O Kamanu, dos DOPO, tinha deixado lá em casa o violino e aproveitei. Dá título à cassete mais ruidosa de Branches, editada em 2012, que recupera gravações de 2008 (!) que julgava perdidas.

4. “Salão Flamingo”: Roubei a batida ao arquivo santo dos anos 60. Em cima dela, guitarras e guitarras, quase cantaroláveis. É a derradeira canção pop de Branches. O vídeo, animado pelo Joel Macpherson (https://www.youtube.com/watch?v=cIAnCtGSngY – obrigado Joel, obrigado Carin), foi uma prenda bonita.

5. “Sol No Terraço”: Quando fiz o “Casa Nossa”, tinha um novo teclado e aprendi a deixar cada instrumento e cada camada respirar. É uma canção pós-mar, quando estás com o corpo feito num oito e o sol te enrola na preguiça.

6. “Delícia De Mar”: Primeiro mergulho pleno nos sintetizadores. Fi-la para o CD-R da digressão com The Exhalers, Lace Bows e Former Selves. A peça plana e borbulha com um sample contemplativo como alicerce. Nunca mais deixei de a tocar ao vivo – sai sempre diferente, claro.

7. “Casa Nossa”: O sample africano deu o mote, a minha guitarra foi atrás, uma, duas, quantas vezes foram necessárias. Poucas canções deram tanto gozo gravar. O nome é uma homenagem à vida a dois.

8. “Laguna Sunrise”: A cassete “Alto Astral” (2010) nem foi bem uma edição – o que fazia era gravar a cassete, à mão, na aparelhagem, a quem ma pedisse. Mas foi um renascimento para Branches, em parte motivado pelos samples incríveis que o Miguel Carvalho me ia mostrando. Voltei a surfar em força por esta altura e isso nota-se.

9. “Cortegaça”: É uma espécie de peça central no “Alto Astral” e foi a “exigência” do João da Wasser Bassin quando ele começou a desafiar-me para esta antologia. Toco Casio e pau de chuva – mais na descontra era difícil.

10. “Zen De Bolso”: Um turbilhão de cordas (guitarra e violino). O pós-“Seiva” levado às últimas consequências.

11. “Yuzu #2″: Talvez a peça mais ambiciosa do “Casa Nossa”. Gosto de pensar nela como techno sem beat, nem corpo, só cabeça no cosmos.

12. “Para Ver O Sol”: A primeira canção do primeiro disco de Branches, o “Seiva” (2006), na saudosa Searching Records, agente de um dos tempos mais bonitos da música portuguesa. Há qualquer coisa de hino que me faz gostar sempre desta canção, que tem guitarra acústica, um sino, taça tibetana e um acordeão de brincar. E o nome projecta o que haveria de ser Branches, como se fosse uma carta de intenções.

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como sempre, alguém por detrás do nome. pedro rios foi, durante muitos anos, um nome importante para nos fazer ler a crítica musical no jornal público. foi bom descobrir que o pedro tinha outra voz, mais audível.
branches é o seu projecto vencedor, que corta agora uma meta importante: o seu primeiro lp. para ouvir o seu sol, eis um tutorial valioso feito na primeira pessoa. sigam o seu som, as suas palavras e a sua sombra.



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