Sexta-feira, 1 Outubro, 2010
Categoria: Novidade
Etiquetas: 4AD, Deerhunter

DEERHUNTER
Halcyon Digest
CD 4AD – 15.50 eur
LP 4AD – 21.50 eur
Há alguma injustiça em fazer um álbum depois de “Microcastle / Weird Era Cont.”. Primeiro, porque foi um disco que resumiu bem uma década de música pop. Década essa em que se olhou demais para o passado e os Deerhunter nesse momento da sua carreira conseguiam-nos levar aos 80s e 90s sem pensarmos num passado, só num presente que estava a acontecer e que era maravilhoso. Segundo, desde que o projecto a solo de Bradford Cox, Atlas Sound, ganhou notoriedade que se tem tornado evidente que a fronteira com os Deerhunter é muito ténue. Daí não ser de estranhar que este “Halcyon Digest” faça lembrar por diversas vezes Atlas Sound, sem que isso signifique uma descaracterização dos Deerhunter. Ou seja, o alias de Bradford tomou conta do própio, e também tomou conta dos Deerhunter. Mas quer um, quer o outro, têm um relacionamento fantástico com a pop. E sim, não é tão bom como “Microcastle”, mas isso não quer dizer que não esteja a milhas de praticamente todos os discos de indie-rock saídos neste ano.
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Sexta-feira, 10 Setembro, 2010
Categoria: Novidade
Etiquetas: 4AD, Deerhunter, No Age, Sub Pop

DEERHUNTER
Revival / Primitive – EDIÇÃO LIMITADA EM VINIL BRANCO
7″ 4AD – 4.95 eur
NO AGE
Glitter
7″ Sub Pop – 5.95 eur
12″ Sub Pop – 9.50 eur
Coincidência ou não, os novos discos de duas das bandas mais entusiasmantes do universo pop/rock dos últimos cinco anos serão editados no próximo dia 27. “Everything In Between”, dos No Age, já estava anunciado há algum tempo, mas a notícia de “Halcyon Digest” (Deerhunter) chegou há duas semanas atrás, quase em simultâneo com a edição do single “Revival / Primitive” (apenas primeiro consta no álbum). duas canções que parecem prometer uma sonoridade dos Deerhunter mais próxima do que nunca dos Atlas Sound, o projecto paralelo de Bradford Cox, o génio hiperactivo por detrás destes dois nomes. Já “Glitter”, editado em 7″ e 12″, anuncia uns No Age de regresso à experimentação mais assumida dos seus primeiros singles e não tanto ao formato-canção de “Nouns”. O 7″ traz “Glitter” e um inédito, “Inflorescence”; o 12″ uma versão longa de “Glitter” (com mais ruído! : ) e dois inéditos no lado B, “In Rebound” e “Vision II”.
Deerhunter
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No Age
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Terça-feira, 16 Junho, 2009
Categoria: Novidade
Etiquetas: 4AD, Deerhunter, Destaques Lust

DEERHUNTER
Rainwater Cassette Exchange
MCD/12″ 4AD – 7.50
EP para o Verão que não foge muito àquilo que é “Microcastle / Weird Era Cont.”, da mesma forma que “Fluorescent Grey” em relação a “Cryptograms”. Mas se nos álbuns fica uma ideia mais clara de conceito/definição, nos EPs Bradford Cox e os seus Deerhunter colocam temas mais etéreos, coisas mais aéreas que não caberiam num álbum mas soam bem no formato de 15 minutos, livres da pressão de álbum e da atenção gerada à volta disso. Não se quer dizer mais experimental, mas onde, por exemplo, no álbum anterior eram o lado mais rock de “Loveless” dos My Bloody Valentine, aqui são aquele mais onírico, provando – se tal fosse necessário – que os Deerhunter sabem separar as águas e já têm nome e autoridade para acusarem um som próprio, ao lado de qualquer revivalismo shoegaze. O facto de estarem inseridos no molhe é, acreditem, pura coincidência.
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Sexta-feira, 9 Janeiro, 2009
Categoria: Top
Etiquetas: 2008, Actress, Beach House, Bernardo Devlin, Bonnie 'Prince' Billy, Deerhunter, Excepter, Fennesz, Fleet Foxes, Gala Drop, Gang Gang Dance, High Places, Last Shadow Puppets, MGMT, Newworldaquarium, Nick Cave, No Age, Quiet Village, Rings, Simon Bookish, Villalobos

20 álbuns que considerámos importantes em 2008.
Podem consultar aqui textos e listas mais pessoais e também de convidados que acederam em partilhar connosco as suas visões do ano que passou. Jornalistas, promotores, músicos, DJs, etc., portugueses e não só.





1 GALA DROP “s/t” (Gala Drop)
Lisboa no centro do mundo, mas Lisboa também como espaço de absorção de inúmeras referências culturais das últimas quatro décadas, projectada por duas das pessoas que mais ajudaram a colocar esta cidade num mapa qualquer (decidam vocês qual) nos últimos anos: Tiago Miranda (Os Loosers, Dezperados, Slight Delay, etc.) e Nelson Gomes (antigo programador da ZDB, hoje Filho Único). A completar o trio, Afonso Simões (Fish & Sheep, Phoebus, Curia, etc.), um dos músicos mais talentosos da sua geração. Juntos gravaram o melhor álbum português das últimas duas décadas (Guilherme Gonçalves substituiu, entretanto, Tiago Miranda). O exagero pode ser levado para onde se quiser, por quem quiser. Mas é isso que se sente com “Gala Drop”, disco do presente onde linguagens do passado, de todos os cantos do mundo, história e cultura se fundem para marcar um tempo, uma geração, par a par com géneros, modas, gostos que a era da informação nos concede. É para isto que se faz música.
2 GANG GANG DANCE “Saint Dymphna” (Warp)
Esperámos muito por “Saint Dymphna” e o pouco que nos foi chegando era de chorar por mais. “House Jam” (canção do ano) foi de um teasing abusivo para quem suspirava pelo sucessor do genial “God’s Money”. Os Gang Gang Dance consolidaram a adaptação do seu som, da sua experimentação e da colagem, ao formato canção. É música de dança improvável, há muita coisa a acontecer para reagir mas também para nos deixar a pensar. É um disco de géneros, mas sem género. É a obra que melhor concretiza o caminho tomado hoje pelas bandas de Nova Iorque (Black Dice, Excepter e Gang Gang Dance) que mais contribuíram para a destruição e reinvenção do formato rock na canção de hoje.
3 HIGH PLACES “High Places” (Thrill Jockey)
Nada resta para inventar na música (dizem), mas ainda ninguém tinha tido o descaramento de imitar os Young Marble Giants (pelo menos tão bem). Este álbum homónimo é um seguimento natural da compilação de EPs lançada meses antes e confirma o estatuto de reis do minimalismo na pop-rock actual. Os High Places fizeram sentir que faltava algo nas nossas vidas, preenchido pelo vocabulário primitivo e repetitivo de Mary Pearson e Robert Barber. É obra soar tão bem hoje como da primeira vez, tão bonito e honesto.
4 BEACH HOUSE “Devotion” (Bella Union)
Falámos de “Devotion” em Março e parece que nunca nos abandonou desde então. Porque fomos gostando cada vez mais dele e porque o nosso affair culminou quando nos encontrámos todos – nós, vocês e eles – no Maxime e Passos Manuel, em Novembro. Ou seja, um longo ano de confessa paixão crescente pela voz sussurante e encantadora de Victora Legrand (grande nome, já agora) e pela delicada e hipnotizante companhia sonora de Alex Scally. Chamem-lhe shoegaze em surdina ou banda sonora perfeita para piscarmos o olho a alguém e fazermos o move perfeito. Como o álbum exactamente acima deste, terão havido poucos discos tão coesos durante 2008.
5 QUIET VILLAGE “Silent Movie” (!K7)
Tudo aquilo que Matt Edwards e Joel Martin prometiam com os maxis na Whatever We Want. Quase todas essas faixas estão aqui incluídas, mas o disco tem uma visão panorâmica que se sobrepõe à sensação de já as termos ouvido antes. “Silent Movie” é feito com excertos de muita música, é uma espécie de enorme re-edit de um passado musical abrangente, cuja estratificação por géneros deixa de fazer sentido. Música de filme, de bar, salão, campo (raramente de cidade), praia, de estrada e de alpendre. A todos se adapta e a todos quer mimar com os seus segredos ao ouvido.





6 NICK CAVE & THE BAD SEEDS “Dig!!! Lazarus Dig!!!” (Mute)
Sempre tivemos o maior respeito por Nick Cave – a relação vem de muito, muito longe – mas “Dig!!! Lazarus Dig!!! fez com que fossemos surpreendidos pelo soberbo punch, violentamente criativo, repleto de ideias e histórias. A começar com o próprio papel de Cave, que aqui só nos faz lembrar a personagem de Daniel Day-Lewis em “There Will Be Blood”, apesar de ter sido noutro western que acabou por fazer a sua aparição – “The Assassination Of Jesse James By The Coward Robert Ford”. Isto só pode significar que a sua música cada vez mais sugere imagens e enredos, e isso significa que Cave está no controlo das operações com o nervo que recentemente pensámos extinto.
7 RINGS “Black Habit” (Paw Tracks)
Anteriormente First Nation, as Raincoats de Brooklyn séc. XXI chamam-se agora Rings e mantêm aquilo que nos fascinou em “First Nation”. “Black Habit” é rebeldia madura, o “Odyshape” de uma década que criou o seu próprio pós-punk e não lhe conseguiu dar um nome para mais tarde recordar. Contudo, nada disto é pós-punk, e sim um registo de sensibilidade e sensualidade femininas, caloroso, sedutor, atípico e corajoso. É o charme da ausência, da estranheza, da liberdade e dos sonhos que estas três raparigas conseguem recriar e transpor para as suas canções. E não houve nenhuma outra em 2008 como “Teepee”.
8 BONNIE ‘PRINCE’ BILLY “Lie Down In The Light” (Domino)
Passou ao lado porque é normal que canse ver Will Oldham associado a tantos discos. E se a desculpa é haver tanta coisa para ouvir, a resposta é que o lugar para os grandes oradores da canção americana estará sempre garantido. É, para nós, o seu melhor disco desde “Master & Everyone”, já longe do negrume de outros dias, agora a sua música não é marcada pela ausência, mas por uma jovialidade que seria difícil de encontrar há uns anos. Não há muita gente que mude tanto e se mantenha intacta. Génio.
9 BERNARDO DEVLIN “Ágio” (Nau)
A questão é extremamente simples: que disco português vocês ouviram, assim, na vossa vida? Mas a resposta é ainda mais simples: nenhum. Não é, obviamente, a raridade que valoriza “Ágio”. São as suas canções únicas, despojadas e na nossa cara, sem artifícios, sem decorações, apenas com a voz performativa de Devlin e os seus impressionantes arranjos semi-acústicos e semi-electrónicos que nos hipnotizam e espantam a cada revisitação. Parece um disco perdido no tempo, mas também parece um disco para uma ideia de futuro. A vantagem é podermos ouvi-lo agora mesmo. Não é para todos, é verdade; é para quem quer.
10 DEERHUNTER “Microcastle / Weird Era Cont.” (4AD)
Bradford Cox não só conquistou o lugar de perturbadinho da música independente norte-americana como tornou muito difícil o papel da figura que se lhe seguir. Além disso, foi responsável por dois dos melhores lançamentos que vimos sair neste ano, a solo como Atlas Sound (”Let The Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel”) e este “Microcastle” com a banda que o popularizou, os Deerhunter. Obra incrível, marcante, a assinar shoegaze em nome próprio. Coisa rara nos dias que correm.





11 THE LAST SHADOW PUPPETS “The Age Of The Understatement” (Domino)
A ideia de um disco de época não é exactamente empolgante, mas “The Age Of The Understatement”, embora soando como um grande disco de 1968, é desconcertante de tão perfeito nas melodias vocais atribuídas à maioria das canções que compõem o álbum. Metade Arctic Monkeys (Alex Turner) e metade Rascals (Miles Kane), é um glorioso hino a um certo classicismo orquestral na pop de 60s (obviamente Scott Walker). Oiçam estas canções quase todas perfeitas, reparem como se canta para uma rapariga de quem se gosta. “Standing Next To Me” é a canção power pop do ano.
12 RICARDO VILLALOBOS “Vasco” (Perlon)
Enquanto os indicadores apontam agora para longe da ideia de minimal praticada por uma legião de produtores na segunda metade desta década, Ricardo Villalobos mantém-se ocupado, em campeonato próprio, a aprimorar a sua noção de tempo e espaço. É de ciência que se trata, embora uma ciência que também é emocional na forma como desperta suspiros de adesão. Quatro faixas longas, e perdoem o cliché mas mais uma vez temos de ouvir faixas longas de Villalobos porque não é música de mudanças súbitas, muito menos de crescendos. “Vasco” parece acontecer inteiramente dentro de uma bolha imaculada onde nada consegue falhar, mesmo que provoque o erro.
13 MGMT “Oracular Spectacular” (Sony/BMG)
Hit atrás de hit, é difícil nomear as canções de que gostámos em “Oracular Spectacular”. Pop por excelência, coração apontado para o psicadelismo e explosões dos Flaming Lips, mas cabeça virada para os flashes e imediatismo orelhudo que colocou estas canções em tudo o que era sítio e “actual”. É o efeito maior do que a vida durante quinze minutos, o disco que levaríamos para uma ilha deserta durante aquele mês e meio em que não conseguimos parar de o ouvir.
14 SIMON BOOKISH “Everything/Everything” (Tomlab)
Simon Bookish segue a longa tradição da pop intelectual, ávida de referências literárias (e neste caso também científicas) para complementar a sua óbvia necessidade de ser popular (ou não se chamaria pop). A visão particular de Simon Bookish faz-se a partir de uma concentração pomposa de Divine Comedy, Pulp, Final Fantasy e Felix Kubin, resultando em canções clássicas, energéticas e espertas, à espera de uma mera distracção para conquistarem o mundo. Termina com “Colophon”, que diz “If I died tomorrow, what difference the tie I used?”
15 EXCEPTER “Debt Dept.” (Paw Tracks)
Num ano em que “Saint Dymphna” dos Gang Gang Dance despertou muita gente para o lado pop de uma geração de músicos vindos de Nova Iorque que cresceu ao longo desta década, “Debt Dept.” foi uma espécie de preâmbulo de todo esse acontecimento. Disco “comercial”, o possível para uma das bandas mais inventivas deste século e que nunca nos deixou ficar mal. O êxtase de outros dias foi substituído pela batida e uma pérfida piscadela de olho à música popular.





16 FENNESZ “Black Sea” (Touch)
Parece estranho que Fennesz, que tantos discos teve com o seu nome nos últimos anos, só apareça nas listas quando faz um álbum a solo. Correndo o risco de sermos injustos, o seu mundo ganha cores e relevos impressionantes quando está sozinho e expõe tudo aquilo que sabe fazer tão bem. Em “Black Sea” há um equilíbrio estonteante entre o doce e o amargo, e nem mesmo todo o lado noise e experimental do seu vento electrónico parece afastar a atracção que Fennesz consegue impor em tanta gente. Foi lindo ver “Black Sea” como um dos discos mais vendidos na Flur (lista a divulgar para a semana), mas mais lindo ainda é ouvi-lo e ficar com vontade de repetir a audição.
17 NEWWORLDAQUARIUM “The Dead Bears” (Delsin)
Com edição em vinil em 2007, CD apenas em 08, “The Dead Bears” estendeu o seu poder narcótico por mais um ano. Quente e coeso como Burnt Friedman na fase Nonplace Urban Field (oiçam “Nike Air” de 1996), este é um álbum que recicla habilmente várias heranças associadas à música de dança para as reintroduzir no loop contemporâneo. Há aqui sobretudo muito da cultura de re-edits que alimentou a primeira vaga de house e muito do ambientalismo pós-techno que sonorizou salas de chill-out há 15 anos.
18 FLEET FOXES “s/t” (Bella Union)
Álbum barroco para as massas, sem masoquismo ou excentricidade nefasta. “Fleet Foxes” é Neil Young em 2008 ou Brian Wilson a tripar noutra maré, mas também deve muito à folk inglesa de finais de sessenta e da década de setenta (Fairport Convention e Steeleye Span, por ex.). Cinco jovens de Seattle recuperaram um imaginário hippie “easy rider”, coloriram-no e tornaram tudo tão infantil quanto onírico, num dos álbuns que maior consenso crítico reuniu em 2008.
19 NO AGE “Nouns” (Sub Pop)
“Weirdo Rippers” era uma recolha de trabalhos deste duo, distribuídos localmente ou de edição limitada, que num todo não formavam matéria consistente para um álbum. Passou ao lado, infelizmente, mas “Nouns”, longa-duração à séria, chamou a atenção do mundo para si e revelou um lado mais pop de Randy e Dean, fundindo Beach Boys/Nirvana/Black Flag/Black Dice em canções imediatas e inesgotáveis. O concerto na Zé dos Bois confirmou esse estado de glória; 2008 foi um ano também deles, tal como 2007 já o havia sido.
20 ACTRESS “Hazyville” (Werk)
Quando parecia que o 2008 seria, graças a Zomby e ao seu testemunho ácido, um grande ano de regresso da Werk, eis que o seu patrão decide mostrar como se eleva a fasquia reanimando o nome de combate Actress e colocando “Hazyville” no mercado numa altura suficientemente tardia para se camuflar na paisagem e passar despercebido à maioria das pessoas. Connosco não resultou, pois seria criminoso ignorar 45 minutos de total hipnose sonora, feita como se Londres fosse o ponto intermédio entre a nova população techno de Detroit e o ritmo empoeirado de Berlim. Naturalmente que os ecos desta revelação se irão sentir por 2009 adentro, pois há quem fale em obra-prima por aqui.
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Sábado, 27 Dezembro, 2008
Categoria: Destaque
Etiquetas: 2008, 4AD, Atlas Sound, Bradford Cox, Deerhunter
Discos de 2008 que não tiveram a exposição merecida ou que, pelo contrário, aparecem agora nas listas de melhores do ano. Todos vencedores, mas só alguns têm espaço no palco.



ATLAS SOUND
Let The Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel
2CD 4AD – 16.50 eur
Atlas Sound (Bradford Cox) é uma das personagens mais carismáticas da pop actual. No início do ano, quando a edição americana de “Let The Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel” nos chegou às mãos ficámos maravilhados. Som surpreendentemente fresco, novo, buscando inspiração num nome pouco óbvio: Pauline Oliveros. Não é uma influência directa, mas compreende-se tal escolha. Mais directos são os Stereolab, numa apropriação industrial do som dos My Blood Valentine ou, falando em linguagem corrente, no rebento que poderia nascer de uma relação intensa de Excepter com Panda Bear (e passando de cruzeiro pelos Animal Collective) em dia de intenso nevoeiro. O resultado é mágico e “Let The Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel” fica ao primeiro contacto como uma obra muito homógenea, capaz de conquistar em diferentes partes do seu alinhamento. Fascinante como poucos discos que querem brincar ao shoegaze, Atlas Sound soa realmente a qualquer coisa de novo quando provavelmente nem o é. Mas desarma-nos com uma honestidade tão bruta que se torna bom acreditar que sim. Agora, com alguns meses de distância, é fácil afirmar com mais determinação que este é um dos álbuns do ano. Não há dúvidas, e o seu único pecado é ser muito extenso (o que até nem é mau, mais música para ouvir). Atlas Sound faz-nos esquecer que Bradford Cox também é líder dessa espantosa banda que são os Deerhunter. A edição europeia pela 4AD traz um bónus imperdível: um EP com vinte minutos de nova música. Seis temas óptimos que mostram o seu universo pop-infantil ainda mais aperfeiçoado. Se já era um dos discos do ano, agora ainda ficou mais irresistível.
(Fevereiro/Junho 2008)
“Tal como parece ter acontecido com (Panda) Bear, também Bradford Cox se refugiou no seu estúdio caseiro munido de guiitarras, efeitos, processadores e computadores e deixou sair os sonhos, as memórias e as divagações, que naturalmente têm uma expressão menos afectiva nos respectivos grupos. (…) apresentando canções que mais parecem indícios, compostos de melodias, texturas, guitarras, ruídos e espaços em branco, psicadelismos, minimalismos electrónicos e crepitações que, em teoria, pareciam condenados a desarticular-se, mas que a voz em suspenso de Bradford Cox e o seu invulgar sentido narrativo conseguem fazer coincidir num cosmos coerente.” 4/5 in ÍPSILON/PÚBLICO
+
DEERHUNTER
Microcastle / Weird Era Continued
2CD 4AD – 16.50 eur
Vamos por partes: Bradford Cox não é um génio. É apenas um tipo com problemas, que deve ser muito chato, e, das duas uma, ou tem muito tempo livre (o que duvido) ou então é um tipo com número ridículo de ideias às quais sabe dar vida. Dele já saiu um dos melhores discos deste ano, o de Atlas Sound , e entretanto já fez n coisas que tem a amabilidade de fornecer gratuitamente no seu blog e que nunca são más, nem extraordinariamente boas, são acima da média e isso é um pouco impressionante para quem mantém em activo dois projectos que toda a gente devia ouvir e consegue ainda um ritmo estonteante de produção. É um tipo que mete música de borla cá fora e que ao mesmo tempo mantém um certo gosto pela tradição do disco e gosta de ver isso assumido no mundo real. Daí ser absolutamente normal ter ficado muito chateado quando “Microcastle” saiu para o mundo virtual mais de meio ano antes da sua data de edição (na altura nem se sabia quando ia sair), simplesmente porque ainda não era suposto alguém estar a ouvi-lo, quanto mais estar disponível para milhões de pessoas. Ficou lixado, entrou num impasse sobre o que fazer com o novo álbum de Deerhunter. Embora a sua edição nunca estivesse em causa, queria fazer algo mais para suplantar o ocorrido, que não só o chateou como entristeceu. Daí que este “Microcastle” venha acompanhado por um segundo CD, um segundo álbum, “Weird Era Continued”. Este é inferior ao primeiro mas mesmo assim tem um leque de óptimos temas. Quanto a “Microcastle”, não há como dizê-lo de outra forma, é um disco excelente. Já “Cryptograms” era muito bom, mas faltava um pouco de maturidade para que o som dos Deerhunter ganhasse personalidade. E é aqui que isso se consegue, canções em loop shoegaze nostálgico que relembram todas as referências óbvias do género (e aqui, claro, até o universo 4AD). Mas o que distingue os Deerhunter do imenso número de bandas que revisitam esse local da música popular é que eles não inventam, não transformam e, sobretudo, não querem fazer nada de novo. Soa a 2008, mas não por causa deles e sim por tudo em redor. Assim distinguem-se facilmente e hoje não custa adivinhar o toque de Midas de Bradford Cox em tudo o que compõe (o que é feito nos Deerhunter é quase por inteiro da sua responsabilidade). Sabe fazer canções, sabe alienar o ouvinte para essas canções. E “Microcastle” que, pelo que sucedeu, poderia ser um disco condenado ao esquecimento, é antes um daqueles de que nos vamos lembrar sempre que ouvirmos 2008.
(Outubro 2008)
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