Sábado, 26 Dezembro, 2015

GALA DROP Nova 12″

€ 11,95 12″ Golf Channel

[audio:http://www.flur.pt/mp3/CHANNEL061-1.mp3,http://www.flur.pt/mp3/CHANNEL061-2.mp3]

Niagara, Tiago RMXS

Não custa dizê-lo: este 12″ representa com uma perfeição muito elevada o que tem sido a produção de música de dança em Lisboa na segunda década deste século. Existem no activo outros actores importantes, mas a concentração destes três nomes mapeia um percurso que ajuda a distinguir mais claramente Lisboa de outros centros. Gala Drop, em si, cumpriram em Lisboa uma função análoga à de LCD Soundsystem em Nova Iorque, que foi a união de dois circuitos – rock e dança – que pouco cruzavam ou, pelo menos, passaram a cruzar-se de forma verdadeiramente natural e descomprometida. Tiago, como co-fundador da banda ainda antes da sua fase, digamos, rítmica, transporta com total autoridade esse legado, puxando aqui “Nova” para aquela área híbrida que a sua música tão bem personifica: disco, house, techno e até, nesta instância, broken beat, mas isso parece-nos que foi Tiago a saber aproveitar muitíssimo bem o rico jogo percussivo de Afonso Simões nos GD e dar-lhe uma espinha dorsal que este, em toda a sua maleabilidade rítmica, persiste em não manter. Como bónus, um “tss tss tss” de boca a pontuar a batida :) Niagara saem por momentos da sua cápsula de improvisação controlada, muito reconhecível através dos seus sons e estruturas – oiçam qualquer disco deles desde o CDR na Dromos – e acompanham, diriamos com total discrição, o groove de Gala Drop lado a lado, como se os três Niagara fossem um só músico convidado que parece sobressair, sobretudo, quando a banda acalma a marcha no bloco central da faixa. Como dizem, “win-win”.


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Quinta-feira, 13 Novembro, 2014

GALA DROP II CD / LP

€ 9,95 CD Golf Channel / Gala Drop Records

€ 15,95 LP Golf Channel / Gala Drop Records

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“All things in their time, all things in their season, all things under the right sign.” Esta frase, em “All Things”, parece resumir o acontecimento que é a edição do segundo álbum de Gala Drop. Em mutação constante (e sonicamente radical) desde a primeira encarnação conhecida no chão da ZDB, a banda cresceu para um controle de groove cada vez mais explícito. A capacidade exploratória não se perdeu, mas a neblina do desconhecido ainda muito presente no primeiro álbum, em 2008, levantou para uma definição de intenções mais universalista, com os braços mais abertos. A voz e mensagem de Jerrald James aqueceram mais a terra por onde passam. A sua experiência como músico em unidades paranormais como as constituídas por George Clinton ou Theo Parrish (Parliament / Funkadelic e The Rotating Assembly) não fazia prever (nem para ele próprio) uma vida prolongada enquanto vocalista de uma banda, muito menos em Lisboa. Ele é talvez o elemento que mais diferença faz no túnel de luz que separa os Gala Drop de ontem da banda de hoje, mas o todo viaja junto, que não existam dúvidas quanto a isso. “Samba Da Maconha” fecha o álbum e, tal como um set de DJ que arranca do público a clássica frase “Ninguém acaba assim!”, deixa-nos à espera de mais, de um prolongamento que, por restrições físicas, só ouviremos num próximo disco. O efeito que tem não é de algo inacabado e sim de algo que se deseja prolongado. Fechando o círculo / Abrindo o círculo, ouvimos a máquina pop de Gala Drop na canção de abertura, “You And I”, a explicar com a prática como se parte de um tapete dub mais ou menos seguro para uma êxtase melódico quase oriental, intenso e conquistador. Na faixa seguinte (“Big City”) aparece verdadeiramente Jerrald como cantor, e assim desaparece a ideia de que a voz serviria apenas como instrumento adicional; “Sun Gun” reforça essa ideia, dobra o som de guitarra, aumenta de velocidade e é verdadeiramente aqui que o álbum se torna imparável. Gala Drop seguem enquanto mestres do equilíbrio entre estilos; muita coisa é admitida no fogo central que alimenta e ilumina, não se rejeita o que à primeira vista parece desadequado, procura-se admiti-lo e acomodá-lo. Fazer aqui uma pausa.

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Sexta-feira, 30 Março, 2012

GALA DROP & BEN CHASNY Broda 12″

€ 12,50 12″ Gala Drop

A capa é um sinal claro da cena de Lisboa, acessível apenas a algumas almas (bastantes?) que se cruzaram com Fernanda Cardoso nas noites do Bairro Alto. É uma espécie de palavra-passe que, para as pessoas em geral, passa por fotografia fantasmagórica gratuita. Desvendado este código, é preciso saber que Ben Chasny (Six Organs Of Admittance) tem uma relação próxima com elementos da banda e, até, com a cidade de Lisboa, o que possibilitou esta colaboração onde também entram Jerry The Cat, outro norte-americano (Detroit) enamorado pela cidade, e Rui Dâmaso dos já lendários Loosers, praticamente fundadores de uma Nova Lisboa há uma década atrás. Segredos de Lisboa. “Broda” é o perfeito título de entendimento para expressar, numa só palavra, a comunhão partilhada na música e na cidade. Ouvimos Gala Drop a solidificar a passagem ritual para um formato mais visível de banda em sessão, impressão que já tinha ficado no anterior “Overcoat Heat”. Agora, o longo desenvolvimento da faixa de abertura, “Positano”, traduz um som mais directo, com a bateria de Afonso Simões sempre solta e imprevisível, a guitarra de Ben Chasny em delírio ácido e, no final, as congas de Jerry The Cat bem em cima na mistura. “Broda” recorda as jams pós-rock dancáveis de Genf, é uma faixa rápida e feliz, densa mas pouco complicada e que brilha especialmente depois do meio, quando a bateria deixa de ser tão festiva e extrovertida. “Brain” é uma jam luminosa com percussão, guitarra e synths em igualdade num plano celestial. Esta música resulta de uma agregação de pessoas e factores que, sejamos francos, nenhuma outra cidade neste momento facilita como Lisboa. Poder local.

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Quarta-feira, 17 Novembro, 2010

GALA DROP Overcoat Heat 12″

€ 9,95 12″ Golf Channel

[audio:http://www.flur.pt/mp3/CHANNEL014-1.mp3,http://www.flur.pt/mp3/CHANNEL014-2.mp3,http://www.flur.pt/mp3/CHANNEL014-3.mp3,http://www.flur.pt/mp3/CHANNEL014-4.mp3]

Ter este disco na mão significa, neste momento, a realização de um percurso ascensional perfeitamente delineado, com calma e certeza do objectivo a atingir. Desde o álbum de estreia em 2008 (descontando os CD-R do período Tiago Miranda – Nelson Gomes), Gala Drop mantiveram o seu som bem protegido para o passo seguinte. “Overcoat Heat” mostra o aperfeiçoamento do groove universal já reconhecido no álbum. Agora, talvez também pelo contexto (o EP sai na Golf Channel), somos sugestionados a pensar que o som está mais dançável, mas dizêmo-lo com total noção de que não é bem isso que queremos dizer. No cenário actual, Gala Drop estão separados de quase todos os nomes que podem ser encontrados na secção Disco / New Disco das principais lojas. São de facto uma banda em acção, isso implica processos e dinâmica muito diferentes do DJ ou produtor de quarto com todas as ferramentas à disposição para cortar um hit disco-house a partir de um qualquer clássico antigo. Gala Drop são quatro músicos com aptidões diversas que se encontram num espaço iluminado pelos focos convergentes da criatividade e influências de cada um. Afonso Simões, Guilherme Gonçalves, Nelson Gomes e Tiago Miranda partem de um formato de quarteto de rock para um espaço único – não ocorrem referências contemporâneas comparáveis de perto. Talvez os Fridge de há uns anos e os Studio percorressem zonas semelhantes, só isso.
As quatro faixas em “Overcoat Heat” são quase mantras em harmonia circular, desenvolvem-se no tempo com insistência suficiente nos detalhes para que a música chegue mais fundo em quem ouve. Percussão, ecos, guitarra, sintetizador, vozes e calor, nem tudo são instrumentos propriamente ditos mas todos são partes da mesma fórmula alquímica.

Philip Sherburne escreveu no Resident Advisor:
“In four tracks, and sometimes within a single one, they run the gamut from Krautrock psyche-out to lysergic Detroit techno. It makes sense to group them alongside other artists journeying outside the conventions of both prog rock and dance music, but it would be an error to mistake them for another run-of-the-mill Balearic act. This music overflows with voice and vision, an almost excessive sense of sheer feeling that’s matched only by their considerable skills as both instrumentalists and producers.
“Drop,” one of the more live, jammy sounding songs here, explores the overlap between Tortoise, the Durutti Column, King Tubby and Cluster without ever straining so much as a muscle; with its glistening guitars and lithe, loping triplet rhythms, it’s hard to imagine a more confident, easygoing song. “Rauze” sticks with a three-against-four conceit, with innumerable layers of synthesizers rubbing and sparking against nervous shaker patterns, and a keening guitar lead that could wring blood from stones. “Cathartic” barely begins to describe it.
“Izod” eases into a classic, chord-heavy house cadence, but with a stumbling, off-kilter sensibility that derives from a group of individuals actually playing their instruments (and punching at machines) in real time. It builds into a percussive frenzy reminiscent of Caribou’s last album, but caked with lo-fi grit; an imaginary meeting of Gavin Russom and improv drummer Chris Corsano comes to mind. The EP ends with the title track, a gorgeous drums-and-guitars dub foray into some dark rain forest of the mind. If it throws you off balance, there’s a reason for it: the song’s in 5/4 time, though you’d never guess it from the grace with which it unrolls. It’s a stunning close to a record that never seems to run out of ideas.”

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Quinta-feira, 1 Abril, 2010

GALA DROP Gala Drop CD / LP

€ 12,95 CD Gala Drop

€ 13,95 LP (Gatefolfd) Gala Drop ESGOTADO / SOLD OUT

A muito aguardada edição em vinil do álbum homónimo de Gala Drop é uma realidade. Esperámos quase dois anos e achamos que alguns de vocês também esperaram. A música não perdeu nada da sua pertinência, continua a ser dos discos mais importantes que se gravaram em Portugal nas últimas duas décadas, não representa um momento no rock, no hip-hop, na música de dança ou em qualquer outro género, e por isso também há-de perdurar com mais consequência. “Gala Drop”, o álbum, é a confluência feliz de uma série de pessoas apaixonadas por música na sua totalidade de expressões, e são pessoas, reafirmamo-lo, cujas actividades em anos recentes criaram efectivamente uma “cena” em Lisboa. Eles, sim, representam ainda um momento histórico na vida cultural desta cidade. Este disco é, para nós, uma espécie de documento não assumido de toda essa vitalidade e consequência traduzido em música excepcional. Capa gatefold a cores com fotografia também a cores a ocupar toda a largura no interior, som “actualizado” para vinil. Olho nas próximas actuações ao vivo de Gala Drop com Holger Czukay (9 de Abril no Lux) e Sonic Youth (22 de Abril).

Em 2008 escrevemos:

“Gala Drop são Afonso Simões, Guilherme Gonçalves, Nelson Gomes, Tiago Miranda. Começaram por ser apenas os dois últimos, em estratégia drone livre, experimentação levada literalmente ao tapete, e hoje o que ouvimos? Kraut-dub de proporções cósmicas? É uma hipótese. Nelson diz “Bushman yoga”, o que naturalmente aceitamos como verdadeiro. O álbum é também uma excursão a locais sugeridos longe daqui. Com total respeito, vemos em Gala Drop não a inscrição numa “herança de música negra” que alinha o Ocidente pelo beat africano mas a consciência despreocupada de quem absorve as suas influências em acto de exorcismo benéfico, reciclagem e, até, coragem criativa. Mexer com deuses ancestrais pode trazer maldição, mas Gala Drop sabem do segredo por dentro e evitam todas as armadilhas montadas para fazer vítima o explorador incauto. Não se diz que todos os passos são calculados, antes que a harmonia universal convocada por este disco dispensa interpretações muito teóricas. Kek-W escreve na FACT: “Há a sensação de que a banda está a dar seguimento a alguns diálogos musicais antigos, que foram interrompidos ou abandonados em vários momentos do passado. Diferentes fios condutores históricos convergem subitamente ou entrecruzam-se neste álbum e eu, pessoalmente, acho isso muito excitante.”
A naturalidade com que o groove é mantido em todas as sete faixas no álbum faz parar o tempo numa corrente de som que podia não ter conclusão. Não existe propriamente princípio, meio e fim, mas um continuum que, em poucos instantes, faz acreditar que este som sempre esteve lá. Complexa e minuciosa mas de simples fruição, a música de Gala Drop parece sair de todas as cabeças em uníssono para entrar em qualquer corpo que esteja por perto. É um prazer.”

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Sexta-feira, 24 Abril, 2009

RSD09 – Questionário #63

Este inquérito é uma forma de celebrarmos o Dia da Loja de Discos, assinalado a 18 de Abril e internacionalmente conhecido como Record Store Day. Cliquem no link acima para saber de que outras formas celebrámos o dia e quem nos ajudou.
11 perguntas quase só sobre discos. Muitas respostas. Muito obrigado a quem acedeu em partilhar os seus gostos connosco. Publicaremos tudo neste blog em ritmo RSD até ao final do mês de Abril e, após, de forma mais descontraída. Amor e paz para todos.

paranoidrumours

AFONSO SIMÕES (GALA DROP)
Músico/Tour booking agent/Roadie

Um disco que tenha sido muito importante (e já não seja) + razão.
Yes “Close to the Edge”; é importante porque é dos primeiros discos que me lembro de ouvir aí com 11 ou 12 anos todos os dias de forma obsessiva.
Um disco que seja muito importante agora + razão.
Hoje em dia ouço musica por necessidade; não há grandes razões para escolher este disco ou aquele como sendo mais importante que outro. Ouço discos que me fazem sentir bem. Um disco que me bateu muito ultimamente, e me foi dado a ouvir pelo Pedro (Gomes), foi Ras Michael “Love Thy Neighbour”, uma produção do Lee Perry pouco conhecida, não muito longe de “Heart of the Congos”, pela dimensão religiosa/espiritual, mas de que ninguém fala (não percebo bem porquê). Mas podia também dizer T-Rex “Ride a White Swan” ou Fleetwood Mac “Rumours”, discos que tenho andado a ouvir insistentemente
Um disco irresistível mas que o resto do mundo acha que é mau.
Modern Talking, não conheço nenhum disco do principio ao fim, mas digamos que não mudo de canal quando está a dar na VH1.
A capa de disco favorita?
Sparks “Kimono My House” ou Black Sabbath “Paranoid”.
Mais CD ou mais vinil? Porquê?
Mais vinil. Compõe melhor a estante.
Qual o primeiro disco que se lembra de comprar e onde foi?
Pela minha mão foi para aí a banda sonora de “Last Action Hero”, filme bera em que entra o Arnold Schwarzeneger.
Qual o último disco que comprou?
Dennis Brown “Joseph’s Coat of Many Colours” numa feira de usados em Algés.
Qual o disco que irá comprar de certeza, em 2009?
Um dos T-Rex que ainda não tenha.
Qual é o artista mais representado na colecção?
É capaz de ser Sightings porque quando cá vieram tocar no Verão passado deram-me os discos todos deles em vinil.
De que artista tenta comprar todos os discos, bons e maus?
Não tenho nenhuma obsessão por ninguém, com o passar dos anos fui deixando de ser fã cego de bandas ou artistas. Gosto muito dos Can, mas há discos deles que simplesmente não ouço.
Que projectos tem em mãos actualmente?
Gala Drop.


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Quarta-feira, 31 Dezembro, 2008

Flur: favoritos 2008 ÁLBUNS


Este ano foi mesmo verdade, aliás, foi mais verdade do que noutros anos: os doze meses foram pouco tempo para fazer tudo o que gostaríamos de ter feito. É a eterna frustração de estar vivo mas também o eterno fascínio, não conseguir fazer tudo e poder esperar fazê-lo no futuro. Se é certo que a água tende a rarear, isso já é um facto preocupante com o Tempo. Vivemos na utopia permanente de que “no final desta semana é que é”
mas nunca é : (
Vivemos, também, num meio em progressiva desagregação. Foram várias as falências, desaparecimentos e recuos no meio musical físico que nos afectaram directamente. À nossa volta abre-se cada vez mais espaço, por baixo de nós também. Como na generalidade do país (do mundo?) trabalharam-se mais e mais horas para os mesmos ou inferiores resultados. Mas foi outro ano excepcionalmente rico em termos de música, a verdadeira alma do negócio, e também excepcionalmente frustrante pela incapacidade de traduzir em vendas a música em que se acredita, porque, claro como a água, estamos na periferia do mercado e os objectos encarecem a cada passo que dão para chegar cá, onde o pouco que se produz não consegue de forma alguma ser atractivo para um consumo sustentável. Para muitos, uma loja física de discos é uma peça obsoleta na engrenagem, uma manutenção retrógada de um tipo de consumo em processo não de extinção mas de avanço para uma exclusividade que se teme inevitavelmente elitista, até pelos preços: o chamado “regresso do vinil” suscitou reedições mais luxuosas e, como tal, muito caras. Fomos abordados várias vezes para comentar esse regresso, encolhendo os ombros porque, para nós, o vinil existe da mesma forma desde que abrimos em 2001. A Flur cumpriu 7 anos e no aniversário desejámos coisas que não vamos dizer: algumas são feias e outras tão bonitas que se calhar são irreais, iam rir-se de nós.
Este é o último texto a ser escrito para o resumo do ano, e as palavras mais importantes que queremos transmitir são estas: muito obrigado a todos os que nos visitaram, telefonaram, escreveram, regatearam, concordaram e não concordaram, compraram e apoiaram, acreditem que em 2008 vocês foram ainda mais a razão da nossa existência.
O Lux e a rádio Oxigénio deixaram-nos espalhar informação por mais pessoas, a sua ajuda foi preciosa. O restaurante Bica do Sapato emprestou-nos a magnífica esplanada para a sessão Slight Delay em Outubro. E obrigado ao Tiago, Alcides e Joana, que trouxeram bolinhos, vinho e champanhe. É o que se leva desta vida : )


intro2008

20 álbuns que considerámos importantes em 2008.

Ano fragmentado nas escolhas, nenhum Panda Bear para carregar as almas de todos para aquele lugar bonito. Ainda assim, quando comparámos listas, Gala Drop foi unânime. Para uns de nós primeiro, para outros top 5, mas com sistema infalível de pontuações o resultado fez plena justiça ao nosso sentimento de que aqui está um disco perto de casa mas que alcança muito muito longe. No tempo e no espaço. Gala Drop procura o ilimitado, no amor que tem a todas as músicas. Sentimos isso, fez-nos muito felizes ao ouvir o disco e retribuímos da maneira tosca que os seres humanos têm: premiando.
Todos os outros discos ficaram inevitavelmente abaixo, mas este ano não conseguimos falar apenas de dez. São vinte os discos que achámos mais importantes em 2008. Não são todos os que existem, não ouvimos tudo o que se fez. Este é apenas o nosso universo. Obrigado por prestarem atenção.


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1 GALA DROP “s/t” (Gala Drop)
Lisboa no centro do mundo, mas Lisboa também como espaço de absorção de inúmeras referências culturais das últimas quatro décadas, projectada por duas das pessoas que mais ajudaram a colocar esta cidade num mapa qualquer (decidam vocês qual) nos últimos anos: Tiago Miranda (Os Loosers, Dezperados, Slight Delay, etc.) e Nelson Gomes (antigo programador da ZDB, hoje Filho Único). A completar o trio, Afonso Simões (Fish & Sheep, Phoebus, Curia, etc.), um dos músicos mais talentosos da sua geração. Juntos gravaram o melhor álbum português das últimas duas décadas (Guilherme Gonçalves substituiu, entretanto, Tiago Miranda). O exagero pode ser levado para onde se quiser, por quem quiser. Mas é isso que se sente com “Gala Drop”, disco do presente onde linguagens do passado, de todos os cantos do mundo, história e cultura se fundem para marcar um tempo, uma geração, par a par com géneros, modas, gostos que a era da informação nos concede. É para isto que se faz música.

2 GANG GANG DANCE “Saint Dymphna” (Warp)
Esperámos muito por “Saint Dymphna” e o pouco que nos foi chegando era de chorar por mais. “House Jam” (canção do ano) foi de um teasing abusivo para quem suspirava pelo sucessor do genial “God’s Money”. Os Gang Gang Dance consolidaram a adaptação do seu som, da sua experimentação e da colagem, ao formato canção. É música de dança improvável, há muita coisa a acontecer para reagir mas também para nos deixar a pensar. É um disco de géneros, mas sem género. É a obra que melhor concretiza o caminho tomado hoje pelas bandas de Nova Iorque (Black Dice, Excepter e Gang Gang Dance) que mais contribuíram para a destruição e reinvenção do formato rock na canção de hoje.

3 HIGH PLACES “High Places” (Thrill Jockey)
Nada resta para inventar na música (dizem), mas ainda ninguém tinha tido o descaramento de imitar os Young Marble Giants (pelo menos tão bem). Este álbum homónimo é um seguimento natural da compilação de EPs lançada meses antes e confirma o estatuto de reis do minimalismo na pop-rock actual. Os High Places fizeram sentir que faltava algo nas nossas vidas, preenchido pelo vocabulário primitivo e repetitivo de Mary Pearson e Robert Barber. É obra soar tão bem hoje como da primeira vez, tão bonito e honesto.

4 BEACH HOUSE “Devotion” (Bella Union)
Falámos de “Devotion” em Março e parece que nunca nos abandonou desde então. Porque fomos gostando cada vez mais dele e porque o nosso affair culminou quando nos encontrámos todos – nós, vocês e eles – no Maxime e Passos Manuel, em Novembro. Ou seja, um longo ano de confessa paixão crescente pela voz sussurante e encantadora de Victora Legrand (grande nome, já agora) e pela delicada e hipnotizante companhia sonora de Alex Scally. Chamem-lhe shoegaze em surdina ou banda sonora perfeita para piscarmos o olho a alguém e fazermos o move perfeito. Como o álbum exactamente acima deste, terão havido poucos discos tão coesos durante 2008.

5 QUIET VILLAGE “Silent Movie” (!K7)
Tudo aquilo que Matt Edwards e Joel Martin prometiam com os maxis na Whatever We Want. Quase todas essas faixas estão aqui incluídas, mas o disco tem uma visão panorâmica que se sobrepõe à sensação de já as termos ouvido antes. “Silent Movie” é feito com excertos de muita música, é uma espécie de enorme re-edit de um passado musical abrangente, cuja estratificação por géneros deixa de fazer sentido. Música de filme, de bar, salão, campo (raramente de cidade), praia, de estrada e de alpendre. A todos se adapta e a todos quer mimar com os seus segredos ao ouvido.

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6 NICK CAVE & THE BAD SEEDS “Dig!!! Lazarus Dig!!!” (Mute)
Sempre tivemos o maior respeito por Nick Cave – a relação vem de muito, muito longe – mas “Dig!!! Lazarus Dig!!! fez com que fossemos surpreendidos pelo soberbo punch, violentamente criativo, repleto de ideias e histórias. A começar com o próprio papel de Cave, que aqui só nos faz lembrar a personagem de Daniel Day-Lewis em “There Will Be Blood”, apesar de ter sido noutro western que acabou por fazer a sua aparição – “The Assassination Of Jesse James By The Coward Robert Ford”. Isto só pode significar que a sua música cada vez mais sugere imagens e enredos, e isso significa que Cave está no controlo das operações com o nervo que recentemente pensámos extinto.

7 RINGS “Black Habit” (Paw Tracks)
Anteriormente First Nation, as Raincoats de Brooklyn séc. XXI chamam-se agora Rings e mantêm aquilo que nos fascinou em “First Nation”. “Black Habit” é rebeldia madura, o “Odyshape” de uma década que criou o seu próprio pós-punk e não lhe conseguiu dar um nome para mais tarde recordar. Contudo, nada disto é pós-punk, e sim um registo de sensibilidade e sensualidade femininas, caloroso, sedutor, atípico e corajoso. É o charme da ausência, da estranheza, da liberdade e dos sonhos que estas três raparigas conseguem recriar e transpor para as suas canções. E não houve nenhuma outra em 2008 como “Teepee”.

8 BONNIE ‘PRINCE’ BILLY “Lie Down In The Light” (Domino)
Passou ao lado porque é normal que canse ver Will Oldham associado a tantos discos. E se a desculpa é haver tanta coisa para ouvir, a resposta é que o lugar para os grandes oradores da canção americana estará sempre garantido. É, para nós, o seu melhor disco desde “Master & Everyone”, já longe do negrume de outros dias, agora a sua música não é marcada pela ausência, mas por uma jovialidade que seria difícil de encontrar há uns anos. Não há muita gente que mude tanto e se mantenha intacta. Génio.

9 BERNARDO DEVLIN “Ágio” (Nau)
A questão é extremamente simples: que disco português vocês ouviram, assim, na vossa vida? Mas a resposta é ainda mais simples: nenhum. Não é, obviamente, a raridade que valoriza “Ágio”. São as suas canções únicas, despojadas e na nossa cara, sem artifícios, sem decorações, apenas com a voz performativa de Devlin e os seus impressionantes arranjos semi-acústicos e semi-electrónicos que nos hipnotizam e espantam a cada revisitação. Parece um disco perdido no tempo, mas também parece um disco para uma ideia de futuro. A vantagem é podermos ouvi-lo agora mesmo. Não é para todos, é verdade; é para quem quer.

10 DEERHUNTER “Microcastle / Weird Era Cont.” (4AD)
Bradford Cox não só conquistou o lugar de perturbadinho da música independente norte-americana como tornou muito difícil o papel da figura que se lhe seguir. Além disso, foi responsável por dois dos melhores lançamentos que vimos sair neste ano, a solo como Atlas Sound (“Let The Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel”) e este “Microcastle” com a banda que o popularizou, os Deerhunter. Obra incrível, marcante, a assinar shoegaze em nome próprio. Coisa rara nos dias que correm.

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11 THE LAST SHADOW PUPPETS “The Age Of The Understatement” (Domino)
A ideia de um disco de época não é exactamente empolgante, mas “The Age Of The Understatement”, embora soando como um grande disco de 1968, é desconcertante de tão perfeito nas melodias vocais atribuídas à maioria das canções que compõem o álbum. Metade Arctic Monkeys (Alex Turner) e metade Rascals (Miles Kane), é um glorioso hino a um certo classicismo orquestral na pop de 60s (obviamente Scott Walker). Oiçam estas canções quase todas perfeitas, reparem como se canta para uma rapariga de quem se gosta. “Standing Next To Me” é a canção power pop do ano.

12 RICARDO VILLALOBOS “Vasco” (Perlon)
Enquanto os indicadores apontam agora para longe da ideia de minimal praticada por uma legião de produtores na segunda metade desta década, Ricardo Villalobos mantém-se ocupado, em campeonato próprio, a aprimorar a sua noção de tempo e espaço. É de ciência que se trata, embora uma ciência que também é emocional na forma como desperta suspiros de adesão. Quatro faixas longas, e perdoem o cliché mas mais uma vez temos de ouvir faixas longas de Villalobos porque não é música de mudanças súbitas, muito menos de crescendos. “Vasco” parece acontecer inteiramente dentro de uma bolha imaculada onde nada consegue falhar, mesmo que provoque o erro.

13 MGMT “Oracular Spectacular” (Sony/BMG)
Hit atrás de hit, é difícil nomear as canções de que gostámos em “Oracular Spectacular”. Pop por excelência, coração apontado para o psicadelismo e explosões dos Flaming Lips, mas cabeça virada para os flashes e imediatismo orelhudo que colocou estas canções em tudo o que era sítio e “actual”. É o efeito maior do que a vida durante quinze minutos, o disco que levaríamos para uma ilha deserta durante aquele mês e meio em que não conseguimos parar de o ouvir.

14 SIMON BOOKISH “Everything/Everything” (Tomlab)
Simon Bookish segue a longa tradição da pop intelectual, ávida de referências literárias (e neste caso também científicas) para complementar a sua óbvia necessidade de ser popular (ou não se chamaria pop). A visão particular de Simon Bookish faz-se a partir de uma concentração pomposa de Divine Comedy, Pulp, Final Fantasy e Felix Kubin, resultando em canções clássicas, energéticas e espertas, à espera de uma mera distracção para conquistarem o mundo. Termina com “Colophon”, que diz “If I died tomorrow, what difference the tie I used?”

15 EXCEPTER “Debt Dept.” (Paw Tracks)
Num ano em que “Saint Dymphna” dos Gang Gang Dance despertou muita gente para o lado pop de uma geração de músicos vindos de Nova Iorque que cresceu ao longo desta década, “Debt Dept.” foi uma espécie de preâmbulo de todo esse acontecimento. Disco “comercial”, o possível para uma das bandas mais inventivas deste século e que nunca nos deixou ficar mal. O êxtase de outros dias foi substituído pela batida e uma pérfida piscadela de olho à música popular.

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16 FENNESZ “Black Sea” (Touch)
Parece estranho que Fennesz, que tantos discos teve com o seu nome nos últimos anos, só apareça nas listas quando faz um álbum a solo. Correndo o risco de sermos injustos, o seu mundo ganha cores e relevos impressionantes quando está sozinho e expõe tudo aquilo que sabe fazer tão bem. Em “Black Sea” há um equilíbrio estonteante entre o doce e o amargo, e nem mesmo todo o lado noise e experimental do seu vento electrónico parece afastar a atracção que Fennesz consegue impor em tanta gente. Foi lindo ver “Black Sea” como um dos discos mais vendidos na Flur (lista a divulgar para a semana), mas mais lindo ainda é ouvi-lo e ficar com vontade de repetir a audição.

17 NEWWORLDAQUARIUM “The Dead Bears” (Delsin)
Com edição em vinil em 2007, CD apenas em 08, “The Dead Bears” estendeu o seu poder narcótico por mais um ano. Quente e coeso como Burnt Friedman na fase Nonplace Urban Field (oiçam “Nike Air” de 1996), este é um álbum que recicla habilmente várias heranças associadas à música de dança para as reintroduzir no loop contemporâneo. Há aqui sobretudo muito da cultura de re-edits que alimentou a primeira vaga de house e muito do ambientalismo pós-techno que sonorizou salas de chill-out há 15 anos.

18 FLEET FOXES “s/t” (Bella Union)
Álbum barroco para as massas, sem masoquismo ou excentricidade nefasta. “Fleet Foxes” é Neil Young em 2008 ou Brian Wilson a tripar noutra maré, mas também deve muito à folk inglesa de finais de sessenta e da década de setenta (Fairport Convention e Steeleye Span, por ex.). Cinco jovens de Seattle recuperaram um imaginário hippie “easy rider”, coloriram-no e tornaram tudo tão infantil quanto onírico, num dos álbuns que maior consenso crítico reuniu em 2008.

19 NO AGE “Nouns” (Sub Pop)
“Weirdo Rippers” era uma recolha de trabalhos deste duo, distribuídos localmente ou de edição limitada, que num todo não formavam matéria consistente para um álbum. Passou ao lado, infelizmente, mas “Nouns”, longa-duração à séria, chamou a atenção do mundo para si e revelou um lado mais pop de Randy e Dean, fundindo Beach Boys/Nirvana/Black Flag/Black Dice em canções imediatas e inesgotáveis. O concerto na Zé dos Bois confirmou esse estado de glória; 2008 foi um ano também deles, tal como 2007 já o havia sido.

20 ACTRESS “Hazyville” (Werk)
Quando parecia que o 2008 seria, graças a Zomby e ao seu testemunho ácido, um grande ano de regresso da Werk, eis que o seu patrão decide mostrar como se eleva a fasquia reanimando o nome de combate Actress e colocando “Hazyville” no mercado numa altura suficientemente tardia para se camuflar na paisagem e passar despercebido à maioria das pessoas. Connosco não resultou, pois seria criminoso ignorar 45 minutos de total hipnose sonora, feita como se Londres fosse o ponto intermédio entre a nova população techno de Detroit e o ritmo empoeirado de Berlim. Naturalmente que os ecos desta revelação se irão sentir por 2009 adentro, pois há quem fale em obra-prima por aqui.

 


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